1 de abr de 2013

A cidade dos presídios

Vista aérea da região central de Neves (Foto: Prefeitura/2004)

Saúde, educação e infra-estrutura jurídica são áreas “esquecidas” pelo poder público.

Reportagem de Maíra Gomes

A psicóloga Francine Lopes é educadora popular e também membro da Rede Nós Amamos Neves. Ela narra que os moradores da cidade têm que lidar diariamente com as três principais consequências deste excesso de presídios na cidade. Afirma que o primeiro impacto observado na cidade é o psicossocial, criando um estigma para o município. “Além de ser cidade dormitório, é também chamada de ‘cidade carcerária’. Assim, a população tem uma baixa autoestima, não se orgulha de ser nevense e esconde que mora na cidade sob o risco de não encontrar serviço”, pontua Francine.

Ela acredita que a vida do Complexo PPP deve aprofundar este problema, indidindo principalmente sobre a vida dos jovens que buscam trabalho. “Nós, da Rede, achamos que criar um estigma de ‘cidade dos bandidos’ é algo criminoso, porque a população perde sua capacidade de enfrrentar a pobreza, de lutar por sua cidade, de buscar trabalho”, declara a psicóloga.

Políticas públicas

Francine afirma que não há interesse político em investimentos nos serviços públicos. Na área da saúde, a cidade conta com apenas um hospital público, com filas enormes para atendimento. Os mais de seis mil presos na cidade têm prioridade nos equipamentos de saúde, gerando mais espera e conflitos para a população nevense.

A moradora Maria Marcolina Chaves mora em Ribeirão das Neves há 45 anos. Ela afirma sempre ter tido problema com o atendimento. “Eu, pra cuidar da minha saúde, tive que fazer um empréstimo e fazer um convênio em Belo Horizonte para me cuidar. Se for esperar aqui, a gente morra à míngua. Muita gente já morreu”, denuncia. Dona Maria diz que diversas vezes já viu médicos levando materiais de trabalho de seus consultórios particulares para cuidar de pacientes da rede pública, tamanha é a falta de estrutura do hospital e dos postos.

Na educação, o censo de 2010 demonstrou o déficit do município. Naquele ano, 20,7% das crianças entre 7 e 14 anos não frequentavam a escola. Outro dado mostra que a taxa de abandono do ensino fundamental de jovens entre 15 e 17 anos está acima de 50%. “O que mais me assusta aqui em Neves é ver construir presídio e não construir escolas. A maior parte das escolas daqui funciona em casas adaptadas, assim como os postos de saúde. Nos bairros periféricos, encontramos muitas crianças e jovens sem acesso à educação. Parece que estão sendo criados para irem para presídios”, declara a professora da rede municipal de Ribeirão das Neves, Nanci Ramos.

Estrutura Jurídica

Segundo a psicóloga Francine Lopes, o terceiro impacto ocorre sobre a estrutura jurídica. O Fórum de Ribeirão das Neves tem prioridade para o atendimento da Execução de Penas no município, dificultando o acesso do serviço à população. A Defensoria Pública deve abrigar quinze defensores, no entanto conta apenas com oito. E somente dois promotores trabalham no Ministério Público em Neves.

A educadora firma ainda que a estrutura física também é precária, sem salas de atendimento suficientes e nem mesmo espaço para arquivo de documentos. “Parte do arquivo do Fórum está no presídio José Maria Alkmin, em um galpão com goteiras e à mercê de ratos. A infraestrutura geral do atendimento jurídico é muito precária e não suporta aumentar o número de presos”, aponta Francine.


Fonte: Jornal Brasil de Fato - nº 522, página 4

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